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Este blog está temporariamente quieto. As agulhas e as linhas estão mais duras e concretas, sem a louca e colorida tecitura.

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20/12/2010 · 1:22

borboletas, bem-aventuradas borboletas!

The Legend of Midir and Etain (lino and acrylic by Desmond Kenny), Grattan House, Dublin

Sempre fui sensível à poesia. Não sei se por influência da minha mãe, uma grande poeta, ou porque a poesia é uma linguagem que a minha alma entende muito bem. Talvez seja por ambas as coisas ou, na verdade, tudo se resuma a uma coisa só: minha mãe é parte da minha alma. Logo que aprendi a escrever, tinha o hábito de registrar minhas emoções e impressões. Isso nunca parou. Por volta dos meus oito anos, escrevi assim: “as borboletas são pétalas de rosas que tem coragem de voar” (sic). Adoro rosas. Adoro borboletas. E sempre me vi como uma delas, não sei o motivo. Sim, rosas pela fragilidade e pelo espinho, borboletas pela inquietude e necessidade de voar. Alguns anos atrás, descobri que as borboletas são um emblema do feminino, no Japão. Misteriosas, como os insondáveis sentimentos humanos, são espíritos viajantes a pressagiar sempre uma visita: da morte ou da vida. Tanto anunciam a morte de uma pessoa conhecida, quanto a visita de alguém a sua casa. Essa força simbólica existe não só no Japão, mas em praticamente todas as culturas. Os astecas consideravam a borboleta um símbolo do sopro vital. Entre as flores, simbolizava a alma de um guerreiro caído nos campos de batalha, ou seja, a alma nas lutas terrestres. Assim, a borboleta é sempre morte e vida, que integra o arcabouço simbólico dos processos psíquicos e espirituais da humanidade. A transformação da lagarta em borboleta exige tempo.  Há um conto irlandês do vasto e rico ciclo mitológico celta que me chama a atenção. É chamado Tochmarc Etaine ou A corte à Étain – Prólogo na Terra das Fadas. Narra a estória de Mider e suas duas esposas, Étain e Fuamnach, essa última muito invejosa a ponto de encomendar um feitiço a um druida que transformasse Étain em uma mariposa e o vento enfeitiçado a levasse para longe, por sete anos. Étain vai parar no palácio do filho adotivo de Mider e ele prepara um refúgio coberto com um véu púrpura, nutrindo-a até sua transformação na borboleta mais linda que se ouvira contar.  Esses sete anos muito me lembraram um quarto do ciclo completo de Saturno, na Astrologia. Saturno ensina os limites, faz acordar para a realidade e amadurecer para vôos mais altos, enriquecidos pela experiência da dor e da limitação. Já o renascimento me traz o mito de Plutão. Mas não quero falar de Astrologia. Quero falar do sacrifício humano de morrer e renascer. Sempre. A função primária do sacrifício é a renovação do cosmos. Não é por acaso que, no mito, Étain se transforma em borboleta púrpura: é a cor da transmutação. Morte e vida. Renascimentos. Borboletas, bem-aventuradas borboletas.

“Borboletas são pétalas de rosas que tem coragem de voar” (de uma menina de 8 anos que não imaginava que, um dia, seria uma borboleta)

 

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Um homem não-medíocre

    ” No dia 13 de julho de 2009, Valdenir Benedetti deixou este mundo para viver entre as estrelas, talvez seu ambiente mais familiar. Porém aqui permanece imortalizado pela sua maneira de pensar e ensinar a astrologia. Muito amado por muitos, deixou uma marca indelével em seus alunos e em todos os astrólogos que com ele conviveram e que reconheceram nele um renovador da nossa arte de interpretar os céus. Como acontece a todos os que ousam transgredir, questionar e inovar, também teve lá seus desafetos, faz parte… Por sorte deixou inúmeros textos, alguns publicados outros não. Este blog foi criado para que todo o seu pensamento fosse acessível tanto aos que o conheceram quanto aos que, ao longo de seu aprendizado da Astrologia, com certeza dele ouvirão falar.”  (Rose Villanova) 
Fotos: Arquivo pessoal           

Adorei a iniciativa da Rose Villanova em homenagear o astrólogo Valdenir Benedetti, criando um blog especialmente dedicado a ele, com a contribuição dos amigos: http://valbene.blogspot.com, ainda mais sob uma Lua em Leão. Nada mais generoso.

Conheci o Val, como era carinhosamente chamado pelos amigos, num grupo de discussão de Astrologia. Como não poderia deixar de ser, entrei naquelas discussões no pior momento, em que pululavam fakes e faltavam elogios entre os astrólogos. O tema era Determinismo e Livre-Arbítrio.

Na minha primeira sequência de posts, conquistei o Val.  Nem havia percebido, considerados os meus desligamentos da realidade, que era o Valdenir Benedetti, da Revista Planeta, que habitava o meu imaginário astrológico da adolescência e me fazia torrar a parca mesada.  Só perdia lugar para o horóscopo do Quiroga, que estava em seu início.

Val sempre me dizia: “Pode dar porrada, você é articulada!”. Isso porque, vez ou outra, aparecia alguém querendo me defenestrar quando eu expressava alguma opinião mais ousada a respeito de qualquer tema astrológico.  Eu ria.

Obviamente não ficamos amigos por causa desse elogio e sim porque ele foi um dos poucos que percebeu o que eu queria dizer. Foi um reforço à minha sempre tentativa de “inclusão terrestre”, afinal, havia encontrado alguém da minha turma, com algumas raras divergências.

O que mais me lembro do Val era quando alguém tentava criticar demais o trabalho dos outros ou começava a falar besteiras incalculáveis nos tópicos de discussão. Como se sacasse uma arma permanentemente engatilhada contra a estupidez e a intolerância, ele acenava com o “O Homem Medíocre”, de José Ingenieros,  principalmente quando ele percebia a inocuidade de qualquer argumento. Assim,  Val sempre me fazia rir alto ao lançar mão dessa defesa da impotência optada. Era só esperar.

Salve o 13 de julho, quando lançamos uma estrela ao céu e descortinamos o “segredos e estilos” reais do Val.  Qual é mesmo o contrário de estrela cadente?  Aplique-se a ele, com certeza.

“O homem medíocre é incapaz de usar sua imaginação para conceber ideais que lhe proponham um futuro pelo qual deva lutar.  O homem medíocre não admite idéias diferentes. Torna-se vil, cético e covarde.”

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Meditação

6 horas da manhã. Acordo e resolvo meditar. Aliás, já resolvi ontem, senão, com certeza não teria acordado para tomar essa decisão. Aum atrás de aum. Estou obcecada pela evolução espiritual e faço questão de me esquecer que descendo mais ou menos do macaco Rhesus. Espera! Não é hoje que vence o condomínio? Putz, mais essa. Vamos lá. A evolução espiritual me chama. Minutos depois, percebo que quem me chama é o sono. A essa hora a disciplina ainda está vindo de metrô. Tentarei sozinha, com o meu próprio esforço. Vamos lá. Auuuummm. Acabo me lembrando que o aum é formado por três letras, mas me esqueço o que exatamente isso significa. Começo a ficar nervosa com a minha tentativa de meditar. Já se passaram minutos e eu ainda não consegui me descolar do aum atrás de aum como fundo musical para o desfiladeiro de pensamentos do cotidiano. Sinto-me uma incompetente espiritual.  Acho que o mundo depois de 2012 não me merece. Continuo na tentativa do aum. Será que Deus tá me ouvindo? Penso em Deus. Não o conheço. Fico angustiada e resolvo voltar à minha tentativa de meditar. Vamos lá. Penso que até agora não deu certo porque estou em Ré Menor. Resolvo entoar em Lá Maior, na esperança de que seja a freqüência do universo. Auuuummmm. Ah! Eu sabia que era isso. Hoje fiquei de jantar com um amigo. Nunca mais marco compromisso. Eles se autopromovem na minha mente. Que falta de respeito! Nova tentativa. Auuuummm. Me vem a música Beatriz, do Chico Buarque. Acho que tem o mesmo tom do meu aum. Começo a cantar mentalmente. Olha, será que ela é moça? Será que é de éter? Descubro que estou me prostituindo nas minhas intenções. Acordei para meditar e já estou pensando no Chico Buarque.  6h30. Vamos voltar. Afinal, disciplina também é tentativa. Aum atrás de aum. Assim vai. Acho que agora não tenho mais nada a me lembrar ou a esquecer. Auuuum… auuuummm. De repente eu me esqueço de mim. Vem o nada. E o nada era tudo o que eu queria.

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O que a vida quer da gente é coragem

Foto: Leoonardo Esch
“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta, esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”(Guimarães Rosa)

 

Não é fácil vivenciar as oscilações que, nem sempre, andam de mãos dadas com a nossa disposição de espírito e muitas vezes nos conduzem aos nossos infernos particulares e infinitos, obrigando-nos a visitar, de perto,  nossos medos, nossas tentativas mal-sucedidas e exposições arrependidas.                                        

Fácil é sorrir e cantar o refrão dos Titãs, talvez titânico, em outros casos tirânico: é preciso saber viver, é preciso saber viver… No entanto, passada a glorificação momentânea e fechadas as portas dos infernos particulares, os adeptos da simplificação existencial  não sabem se vão direto para as terapias ou para os bares (que, hoje, também vêm sendo considerados como tal) na tentativa frustrada de verem suas vazias incertezas explicadas ou amenizadas, ensurdecendo o som do sofrer.

De vez em quando, dá aquela sensação de ser sobrevoado pelas águias da angústia, acompanhadas pelos abutres da falta de perspectiva. A partir daí, vem a pergunta: é  mesmo preciso saber viver?

A resposta surge, de imediato: sim, é preciso saber viver ou, parafraseando Fernando Pessoa, simplesmente é preciso navegar. E esse navegar me traz a lembrança da fluidez da água, que só enfrenta abruptamente os obstáculos quando é necessário e na maioria das vezes flui, desvia, dança nas vias da vida até a sua totalidade, ao encontro de si mesma na imensidão.

E falando nela, a água, temos um natural e cristalino exemplo de coragem, que pode inspirar a todas nós. Ela desconhece obstáculos, porque apenas flui. Se está frio, ela tem o seu tempo: congela, tem paciência de ver o sol sair para continuar a sua jornada, tem uma aquiescência peculiar. Se está quente, evapora-se para voltar, mais tarde, novamente fluida, refrescando, ajudando a semear, prosperando. Muitas vezes, ela invade e assola, mas, não porque isso seja o seu propósito. Mesmo assim, continua, bela, num compasso contração-expulsão, que traduz a própria vida, o próprio ciclo dos fenômenos.

Coragem é o que ela tem, porque flui. Então, o que fazer quando a vida embrulha tudo? Uma boa resposta seria: viver e fluir como a água, afinal, viver aprende-se fluindo…

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inspiração: de onde este blog veio

dou início ao meu blog com um dos contos machadianos mais renomados. machado de assis tem a minha enorme admiração. não somente por ser um dos mestres da tecitura literária,  mas por dominar a narrativa psicológica e dissecar a alma humana em busca de sua essência.
realmente apaixonante. “um apólogo” é um famoso conto que narra o desentendimento entre a agulha e alinha. a agulha vangloria-se por ser a responsável pela abertura do caminho para a linha.
 tudo isso ocorre enquanto a costureira prepara o vestido de baile da baronesa. a frase final do conto, de alguém que ouvira essa estória, “também tenho servido de agulha a muita linha ordinária” é bastante sintomática, faz lembrar um traço comum nas obras de machado de assis: na busca por status, as pessoas acabam sendo usadas e depois descartadas.
vez ou outra deparo com essas situações.  ao longo de muitos anos de experiência e obervação, foi possível perceber traços de mesquinhez que vez ou outra assola o comportamento humano, da falta de compaixão e de perspectiva espiritual nos relacionamentos. já vivenciei situações em que caracterizadamente houve uma deterioração no ar, advinda dessa relação linha e agulha. pessoas buscam status, vivem a vaidade execrável sob o ponto de vista humano e, por isso, não se questionam, muito menos percebem que, ao lavar as mãos estão sujando suas próprias consciências. essas percepções me trouxeram aprendizados e, principalmente, a oportunidade de entender a dualidade humana. a partir daí, fiz uma digressão do ponto de vista machadiano e decretei que as minhas linhas e agulhas teriam novos sentidos, novas tessituras: escrever, tecer pensamentos imperfeitos. talvez, no fim, eu até esteja sendo fiel ao apólogo machadianos, pois essa relação tão imperfeita dos pensamentos seja mesmo de uso e desuso entre ideias, reflexões, dúvidas, conclusões, revisões e todos os outros ões.
 “Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando…
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto…
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima…
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: 
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. 
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
 Texto extraído do livro “Para Gostar de Ler – Volume 9 – Contos”, Editora Ática – São Paulo, 1984, pág. 59.

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